Páginas

Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

sábado, 9 de maio de 2015

80 Erros Gramaticais que você deve evitar para ser um bom escritor

domingo, 5 de abril de 2015

SE - Tradução de Guilherme de Almeida - Original: IF - Rudyard Kipling

Este poema é lindo! Como todos os clássicos, ele transpõe todas as fronteiras e fala ao nosso íntimo.

Se

(Tradução de Guilherme de Almeida)


Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho! 



-.-.-.-..-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

If

By Rudyard Kipling



If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools; 

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!" 

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son

Rudyard Kipling é um dos mais conhecidos  poetas vitorianos e contadores de histórias. Embora ele tenha sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1907, suas opiniões políticas impopulares fizeram com que sua obra fosse negligenciada logo após sua morte. Os críticos, no entanto, reconheceram  o poder de seu trabalho. "Sua habilidade implacável, sua determinação de ser.  " Kipling  nasceu em Bombaim, na Índia, no final do ano de 1865.
 Kipling passou os primeiros anos de sua vida na Índia.  Em 1871, no entanto, seus pais o enviaram e também a sua irmã Beatrice – chamada de “Trix” -  para Inglaterra, em parte para evitar problemas de saúde, mas também para que as crianças pudessem começar a sua escolaridade. Kipling e sua irmã foram colocados com a viúva de um velho capitão da marinha chamado Holloway em uma pensão chamada Lorne Lodge em Southsea, um subúrbio de Portsmouth. Kipling e Trix passaram  a maior parte dos próximos seis anos naquele lugar, que eles vieram a chamar de "House of Desolation." Os anos de 1871 até 1877 tornou-se, por Kipling, anos de miséria. "Além de sentimentos de perplexidade e abandono" de ser abandonado por seus pais, escreve Mary A. O'Toole no Dicionário da biografia literária, "Kipling teve de sofrer assédio moral por parte da mulher da casa e do filho dela também."
Extraído do site www.poetryFoundation.org


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Poema Traduzir-se




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

domingo, 18 de novembro de 2012

Poema: Não há vagas

Analise do Poema: Não há vagas




Não há vagas


                                                      Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
luz e telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açucar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.

Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

So cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema senhores,
não fede
nem cheira

Ironicamente Ferreira Gullar fala sobre a temática do poema. Há uma crítica velada a abordagem de temas que não se aprofundam na vivência humana. Para o poeta, não há vagas, o poema está fechado só para o que de fato importa, o cotidiano das pessoas. Para futilidades, e temas que nada acrescentam ainda há vagas; esse tipo de poema não cheira nem fede, isto é não faz a menor diferença.

Pesquisando na internet encontrei uma análise completa feita pelo professor Rinaldo de Fernandes e tomei a liberdade de postar  no meu blog, para meus leitores.

Análise do Poema: Não há vagas por Rinaldo de Fernandes

  -  
Um dos poemas mais instigantes de Ferreira Gullar é, certamente, Não há vagas, de 1963. É assim (já estou dividindo-o em suas estrofes): Primeira estrofe: “O preço do feijão/ não cabe no poema. O preço/ do arroz/ não cabe no poema./ Não cabem no poema o gás/ a luz o telefone/ a sonegação/ do leite/ da carne/ do açúcar/ do pão”. Segunda estrofe: “O funcionário público/ não cabe no poema/ com seu salário de fome/ sua vida fechada/ em arquivos./ Como não cabe no poema/ o operário/ que esmerila seu dia de aço/ e carvão/ nas oficinas escuras”. Terceira estrofe: “— porque o poema, senhores,/ está fechado: ‘não há vagas’”. Quarta estrofe: “Só cabe no poema/ o homem sem estômago/ a mulher de nuvens/ a fruta sem preço”. Quinta estrofe: “O poema, senhores,/ não fede/ nem cheira”.

Tentemos interpretá-lo, estrofe por estrofe. Primeira estrofe: o que significa o verbo “caber”, em “não cabe no poema”? Provavelmente “tema”, “assunto”, “abordagem”, ficando: “não [é tema, assunto ou abordagem do] poema” os seguintes itens: feijão, arroz, gás, luz, telefone, sonegação (grifo meu), leite, carne, açúcar e pão. Artigos de primeira necessidade, materiais imprescindíveis ao cidadão, à sua sobrevivência no cotidiano. Note-se que “sonegação” destoa dos demais itens. Por se tratar de um substantivo abstrato, posto em meio a substantivos concretos, e contendo um conteúdo de ordem moral. “Sonegar” pressupõe “furtar”, “fraudar”, “desviar”. Neste caso, tema ou assunto por excelência, pois diz respeito à saúde financeira do Estado, a prejuízo ao erário público. Numa palavra, diz respeito (como, reitere-se, os demais artigos apontados) à vida de todos. Portanto, é algo muito sério, que mereceria uma abordagem do poeta. Mereceria caber no poema. Assim, já se percebe o tom irônico do texto. Ainda na primeira estrofe, tem-se um ritmo liberado, irregular, as vírgulas de todos os versos são extraídas, o que já insere o texto no Modernismo; o verbo caber (sempre ele!) aparece em posição invertida (em “Não cabem no poema o gás/ a luz o telefone…”), ganhando destaque, tendo seu sentido intensificado. Há ainda a estrutura em paralelo dos versos finais (em “do leite/ da carne/ do açúcar/ do pão”), com a anáfora da preposição “de” contraída cadenciando a enumeração dos itens.

Segunda estrofe: aqui são destacados dois sujeitos, que também não cabem no poema: o funcionário público e o operário. O primeiro, com seu “salário de fome” (salário baixo, miserável, pouco), tem a “vida fechada/ em arquivos”. Aqui, no enjambement, a ambigüidade: vida em recinto com janelas e portas cerradas, portanto, insalubre, impróprio? ou vida burocratizada, sendo o funcionário apenas um número nos fichários estatais? O operário, por sua vez, ao esmerilar (ou friccionar) o seu “dia de aço” (dia duro, difícil) nas “oficinas escuras”, e embora com um trabalho tão indispensável à sociedade, fica na sombra, é a imagem ou metáfora da invisibilidade. Enfim, pela importância social de ambos, pela vida que levam, não mereceriam, funcionário e operário, também ser assunto do poema? Prossegue o tom irônico do texto.

Terceira estrofe: agora, ao modo de uma justificativa dirigida a gente solene (a poeta solene?), diz-se primeiro: “— porque o poema, senhores,/ está fechado”. Intui-se (e a ironia intensifica-se) que, se o poema “está fechado”, é porque está insensível, indiferente à vida e suas necessidades, ao homem e sua labuta. Aí vem a expressão que dá título ao poema: “Não há vagas”. Expressão típica do mundo do emprego, das relações patrão e empregado, indica falta de oportunidade. Ora, o que o poeta quer dizer, e em consonância com o teor irônico das estrofes anteriores, é que não é oportuno para a poesia ter como assunto as questões do dia-a-dia. Cabe a pergunta: não é oportuno para qual poesia? Para a do poeta? Para a da época em que foi composto o poema? Ou para a de poetas de períodos passados (os parnasianos, por exemplos, que se fechavam para os temas cotidianos)? Parece que sobretudo à poesia, do passado e do presente, que foge (ou aliena-se) dos dramas diários.
Quarta estrofe: aqui assevera o poeta que três coisas cabem no poema (ou na poesia que se fecha para a vida diária): o “homem sem estômago”, isto é, aquele, remediado ou rico, cujas preocupações não se voltam para as questões básicas de subsistência; a “mulher de nuvens”, ou seja, a mulher idealizada, objeto de abstração, e não, por exemplo, a dona de casa, imprensada no seu dia-a-dia; e a “fruta sem preço”, ou melhor, aquela apenas admirada nas formas, se exposta na obra de arte (por isto mesmo cabendo no poema), e não aquela comprada/negociada nos tablados da feira.

Quinta estrofe: agora vêm os versos finais, que afirmam: o poema “não fede/ nem cheira”, isto é, ele — o poema que apenas idealiza a vida — tanto faz existir ou não, é indiferente. Conclusão: Não há vagas, como foi indicado, se refere sobretudo à poesia, do passado e do presente, que se fecha à ordem do cotidiano. O texto, assim, com esse andamento metalingüístico, com o poema que discute a própria poesia, parece se tecer também como uma poética do autor. Ao se discutir o fazer poético, está se discutindo — embutido no texto — o sentido ou mesmo a função da poesia — para quê, e para quem, ela serve. O poema, assim, se tecendo como uma poética do autor, uma poética marcadamente modernista, e ironizando os poetas indiferentes à vida, ao cotidiano das pessoas comuns (como os parnasianos, por exemplo), traz o seguinte recado: a poesia não deve se furtar às questões sociais. Nela cabe, sim, há vagas para os dramas diários. Portanto: o sentido verdadeiro do poema é o contrário do que nele é dito.
Rinaldo de Fernandes é escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Vive em João Pessoa (PB)
Esta análise foi extraída do Gazeta do povo - http://rascunho.gazetadopovo.com.br/analise-de-um-poema-de-gullar/ 
.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema sem título, Sobre o Poder da Palavra Escrita

"Se me 
disseres que me amas, acreditarei.
Mas se escreveres que me amas,
Acreditarei ainda mais.

Se me falares da tua saudade, entenderei,
mas se escreveres sobre ela,
eu a sentirei junto contigo.

Se a tristeza vier a te consumir e me contares,
eu saberei, mas se a descreveres no papel,
o seu peso será menor"

... e assim são as palavras escritas:
possuem um magnetismo especial, libertam,
acalentam, invocam emoções.

Pesquisa personalizada