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Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Análise do Poema - Cota Zero




"Um poema se faz com palavras, a literatura é a arte da palavra"            (Domício Proença Filho)




Cota Zero
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

Poderíamos chamar estas palavras, assim agrupadas, um poema? Há poesia neste enunciado? Em uma primeira leitura diríamos que não. Não há rima, não há métrica nada que identifique estes versos com determinadas técnicas literárias. Entretanto, quando descobrimos seu autor começamos a ficar estremecidos em nossas convicções poéticas. Carlos Drummond de Andrade é o autor deste poema.
Depois de ler a análise feita por Domício P. Filho, ficamos envergonhados por não enxergar tanta poesia em tão poucas palavras.

Procurarei transcrever a análise com fidelidade.
"1- O título anuncia uma situação neutra: zero; simultaneamente positivo e negativo; com esta significativa palavra cota, entendida como parte, quinhão que cabe a cada um, ou como na linguagem matemática, a distância de um ponto a um plano de referência.
2 - Stop. Palavra universalmente conhecida e difundida que indica parada momentânea, estacionamento. Muito usada na sinalização do trânsito para orientação de veículos.
3 - Mas quem pára é a vida; isto é muito mais sério e importante: se a vida pára, é a neutralidade, a ausência de valores; é o desespero, a angústia de não saber aonde vamos e, às vezes, nem de onde viemos... E o poeta surpreende o leitor: espera-se naturalmente que o automóvel pare; a parada da vida provoca um impacto de surpresa.
4- Qual seria a solução? Fugir para Minas? Abrir a porta, cuspir? Tomar o bonde? Atingir uma utopia? Descobrir uma teogonia? Ou dar de ombros, menosprezar a vida, como se ela não fosse mais do que um automóvel que passa?
5 - Esta última, a solução: ironizar: ou foi um automóvel? Desvalorizar, para não chorar. Rir, num riso chapliniano, onde, através do humor, se percebe a tragédia de quem se sente neutro, nulo, vazio, num instante da existência em que pára a vida e a cota ainda é zero.
6 - E estamos diante de uma situação que não é exclusiva do poeta. Qualquer pessoa, em qualquer tempo, pode ver-se diante do sinal: stop. E verificar a nulidade: zero ainda e assumir uma atitude indiferente, de autodefesa. As palavras permitem concluir que a cota zero não é colocada em termos definitivos; o sinal usado indica como assinalamos , um parar momentâneo. O que importa, sobretudo, é que, tal como foram arrumadas, são capazes de revelar algo de universal, são capazes de atingir a sensibilidade e traduzir um sentimento trágico do mundo.
7 - Observe-se: a língua, enquanto explicitação da linguagem de uma comunidade, se restringe à simples representação de fatos ou situações particulares, observadas ou inventadas. A literatura se configura como tal, quando, ao tratar desses fatos ou situações, realça-lhes os elementos universais e característicos, a partir de realidades singulares, revela-se, no literário, uma dimensão plural.
8 - E se um poema se faz com palavras, neste elas como que se completam, se ligam mais estreitamente, criando uma ambiência semântica onde a idéia de estacionamento, parada, é a constante: zero, stop, parou; e sem exagerar, a vida também se move por si, como o automóvel. O autor traz para a poesia os elementos mais cotidianos, inclusive o termo estrangeiro, como numa ânsia de comunicação universal.
9 - A mensagem se contém em sete termos, cuja conotação consegue criar a condição de poesia.
10 - Podemos ainda afirmar que o texto em exame envolve, além da universalidade já assinalada:

    * valorização poética do cotidiano;
    * integração poética da civilização material;
    * desvalorização irônica da vida;
    * sentimento trágico da existência;
    * humor, como solução.

11 - Mas, como se observa de imediato, não é fácil penetrar no "reino das palavras" acostumados que muitos estão com um tipo de estrutura que, por tradicional e quase sempre lógica, atinge a sensibilidade com mais prestreza.
12 - Cremos, entretanto, que o hemetismo desse poema lhe confere um valor, quando nos leva a uma esforço de penetração na mensagem nele contida; a vitória da compreensão amplia o âmbito de fruição do deleite estético que toda obra de arte literária deve proporcionar.
13 - Quanto ao ritmo, cabem algumas observações. O autor não se prende à métrica tradicional em que a melodia do verso se consegue através de uma regularidade nítida e sistemática no número de sílabas e da disposição dos acentos tônicos: ele age com plena liberdade, utiliza-se do verso livre.
14 - Observemos ainda a pontuação: o verso Stop. termina num ponto que obriga uma pausa; mas o segundo verso deixa ao leitor terminá-lo com um sinal amarelo ou passar livremente para o verde do último, como se o desvio, irônico, encontrado para o impasse trágico da parada da vida abrisse o caminho para o amortecimento da tensão...
15 - Cremos poder afirmar, após essas considerações, que as palavras do poema constituem uma revelação de realidade século XX em que vivemos, perplexos quando a vida pára, na busca de soluções nem sempre encontradas, o que conduz a um estado de permanente indagação: E agora?"

Com podemos constatar, uma análise mais acurada do poema traz uma série de informações que jamais poderíamos, sozinhos, apreender. Com poucos palavras, bem colocadas, utilizando-se dos recursos próprios da língua, tais como, pontuação e tonicidade das palavras, Carlos Drummond de Andrade, consegue colocar cadência aos versos e transmitir uma mensagem profunda sobre a indefinição e o estado de desolamento do homem do século XX.




3 comentários:

Camila Mello disse...

Que isso!!!!
Muito bom MESMO!
Que análize *-*
exatamente o que procurava ;)

Gugu dos Anjos disse...

Sou estudante de Letras Vernáculas pela Unviversidade Estadual de Feira de Santana.Gostei muito da analise!Ela está muito coerente ao conteudo do poema.usei muitas dessas informaçoes para compor meu trabalho.Parabéns!!!!

Cícero Alvernaz disse...

Vou tentar de novo. Drummondiano desde a adolescência, eu nunca parei para estudar e tentar entender este poema. Para mim, isto era mais uma das muitas ironias do Drummond, ou, simplesmente, mais uma brincadeira.

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