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Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tecendo a Manhã - João Cabral M.Neto



Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
Ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
E o lance a outro; de um outro galo
Que apanhe o grito que um galo antes
E o lance a outro; e de outros galos
Que com muitos outros galos se cruzem
Os fios de sol de seus gritos de galo,
Para que a manhã, desde uma teia tênue,
Se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
Se erguendo tenda, onde entrem todos,
Se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
Um pouco sobre o autor
Filho e neto de donos de engenho, nascido a 09 de janeiro de 1920, em Recife, João Cabral não se considera um poeta. Desde menino revelou inequívoca relação com a palavra escrita. Logo que aprendeu a ler, lia tudo o que lhe caísse nas mãos, fosse livro de química, geografia ou história.
Passou a infância em São Lourenço da Mata, interior de Pernambuco, entre canaviais, coqueiros e engenhos do Poço do Aleixo, propriedade da família, e cresceu entre cantadores, repentistas e cordéis. João tinha dez anos quando mudou para Recife. Em Recife, estudou no colégio São Luís.
Foi funcionário público e diplomata.
O reconhecimento de seu trabalho em todos os níveis aconteceu com o poema dramático Morte e Vida Severina, escrito em 1956, levado ao palco pelo Teatro da Universidade Católica, dez anos depois.
O espetáculo Morte e Vida Severina, dirigido por Roberto Freire e Silnei Siqueira, musicado por Chico Buarque de Holanda, foi visto por mais de 100.000 pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro. “É a primeira vez que a poesia tem alguma utilidade em minha carreira”, comentaria João Cabral, entre irônico e agradecido à poesia.
João Cabral faleceu no Rio de Janeiro, dia 09 de outubro de 1999, aos 79 anos de idade.

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