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Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

sábado, 6 de março de 2010

Análise do poema: Irene no Céu

                      Manuel Bandeira
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor,

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E são Pedro bonachão:
- Entra Irene. Você não precisa pedir licença.



Mais uma análise do Prof. Domício Proença Filho.

Domício ressalta três conclusões, que estarão na base dos seus comentários:
  • A literatura é a arte da palavra
  • A literatura revela uma realidade (a literatura é o homem e sua circunstância).
  • A literatura, arte que é,  proporciona prazer estético.
Como arte é um sistema de signos, mas um sistema especial que se vale de outro, a língua utilizada pelo escritor.

Nessas circunstâncias, pressupõe, da parte do criador, uma "escolha entre as possibilidades de expressão que se apresentam na língua", desde que sabemos que esta é o principal código que o homem utiliza para a realização de sua fala.

Esta escolha é que permite caracterizar o estilo de cada um com maior ou menor singularidade.

Tal caracterização "decorre, antes de tudo, do nosso impulso emotivo e do propósito  claro ou subconsciente de sugestionar o próximo".

Consideradas as funções da linguagem caracterizadas por Bühler e retomadas por Jakobson, o estilo está muito mais "relacionado com a exteriorização psíquica e com o apelo do que com a representação mental", vale dizer, mais com as funções emotiva e conativa do que com a função referencial. Claro está que, com dizermos está mais relacionado, não eliminamos esta última, indispensável; apenas enfatizamos que a escolha se faz muito mais em função daquela do que desta. O ato linguístico envolve uma certa hierarquia de funções.

Pois, se "há objetos ou noções que despertam mais a nossa inteligência, outras que chocam mais a nossa sensibilidade", assim também acontece com as palavras, "umas têm uma dominante afetiva, outras uma dominante intelectual".

Quando selecionamos da língua, patrimônio comum, coletivo, as palavras que utilizamos na nossa comunicação, muitas vezes somos levados, em nome da expressão, a um afastamento das normas linguísticas; eis que o campo de ação da estilística difere do campo de  ação da gramática. 

No texto literário, o estilo é colocado a serviço da criação artística. É fácil compreender que cada um de nós, falantes, de um estilo; como, na fala cotidiana, não temos preocupações com criar artisticamente, muitas vezes este não se apresenta com características tão marcantes que justificassem ou mesmo possibilitassem um estudo; e mais: o interesse de tal estudo fugiria do âmbito literário.

A linguagem literária, como já afirmamos, se caracteriza, sobretudo, pela conotação. Num texto literário, aquilo que as palavras representam vai além do conteúdo lógico,  ultrapassa a simples representação mental nelas configurada e que reproduz objetivamente o mundo. Não se apóia basicamente no significado, como a linguagem da ciência, por exemplo, mas se faz de significado e significante.

As palavras, no texto literário, tornam-se multissignificativas e adquirem um valor específico no momento em que se integram no mesmo e passam a fazer parte dos elementos que, interligados e interdependentes, constituem a obra de arte da palavra.

Todos os recursos que vimos assinalando, ao caracterizar os aspectos a serem examindos numa leitura de textos, constituem meios de que vale o artista para converter a linguagem usual em linguagem literária.

Cumpre ainda assinalar que a linguagem em versos é um setor da linguagem literária, onde ressaltam entre recursos caracterizadores o ritmo e a imagística.

É o que se verifica, por exemplo, neste pequeno e significativo poema de Manuel Bandeira.

A começar da primeira estrofe, uma frase toda feita de enumeração, sem verbo, com a repetição do substantivo Irene, numa anáfora caracterizadora da expressividade com que pretende jogar diante dos nossos olhos a figura central do poema. Sem falar nas elipses da segunda estrofe, ou no jogo estilo  indireto / estilo direto, observamos na conjugação do verbo entrar ("Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.") uma violência à norma gramatical: afinal de contas, entra é forma de imperativo de segunda pessoa do singular, e você, embora pronome de segunda, exige, por razões etimológicas, flexões de terceira. Então o poeta errou? Claro que não. Violentou a norma, em nome do efeito expressivo. O fato mesmo de o pronome você ser de segunda pessoa  explica não apenas o uso que do verbo faz o poeta, mas a frequência  com que nós, brasileiros, mesmo os conhecedores de português, confundimos as formas pronominais. Ora, em tratando o poema de quem trata, aquele aparente erro traduz a naturalidade e o afeto com que o poeta marca as palavras do santo porteiro do céu. Ele põe nos lábios de São Pedro termos que, pelo seu significado socialmente convencional, colocam Irene à vontade, sem cerimônia, no momento de seu ingresso na morada eterna. E repare que o adjetivo  bonachão, o simples da expressão Licença, meu branco, popular, coloquial, típica do personagem, como que autorizam a forma entra.

Quando a influência do escritor se exerce com grande intensidade, há como que uma "divulgação" de formas linguísticas, e muitos dos elementos de seu estilo passa a ser utilizados correntemente pelos demais membros da coletividade. 

E repare-se que costumamos referendar as normas gramaticais com exemplos de escritores consagrados, e os consagramos na medida em que sejam representativas as suas obras de arte literária.

Proença Filho, Domício - Estilos de Época na Literatura. 5ª edição - São  Paulo: Ática, 1978 (pp. 52 e 53).


Não assinalei as citações, mas se quiserem a análise na íntegra é só adquirir o livro e se deliciar com a forma que Domício Proença nos apresenta o Estilo de Época na Literatura.

Um comentário:

Simplesmente Serva disse...

Cleuza, fiquei feliz com sua visita ao meu blog Mulher Santificada, e vim aqui retribuir.

Tenha uma boa páscoa.
Muitas bênçãos sobre sua vida.

Lindaura Moreira (Simplesmente Serva)

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