Páginas

Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

terça-feira, 2 de março de 2010

Análise do Poema José

"Não existe vento favorável para aquele que não sabe para onde vai." - Arthur Schopenhauer



José 

Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já  não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua bilbioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
  
Carlos Drummond de Andrade

Análise:
O poema José mostra-se com uma visão pessimista do cotidiano. Seu tema central  é a solidão do homem, sua falta de espaço; revela uma profunda angústia pela vida.
Inicialmente, observamos que a alegria e a felicidade já existiram, mas agora, "a festa acabou". Em seu lugar ficou a escuridão, o frio, o abandono: José está só.
"E agora, José? A festa acabou" (A alegria se foi... situação de perda), "a luz apagou" (escuridão, trevas), "o povo sumiu" (solidão, abandono), "a noite esfriou" (noite e frio não só no ambiente físico, mas também na alma, na vida de José.]
As interpelações, cada vez mais repetidas, ganham maior intensidade e significação, pois reforçam a situação do homem que já não tem ambiente.
"José" é a metonímia do próprio autor e/ou de um povo, cuja situação é repetida dia a dia, pois não há destino certo: na escuridão, sem amigo e sem abrigo. O poema José é simbolo de uma época de massificação, de uma "época de objetos e não de sujeitos". (Sant'anna).
"José" é um heterônimo do autor. É  capaz de amar, de ser irônico, pois , "zomba dos outros", faz versos, mas que ironia: é desconhecido; vive no anonimato; "José" não tem sobrenome, não se sabe de onde veio nem para onde vai. "Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta?" Apesar do anonimato José não é um alienado; ele ama, é irônico, escreve e protesta. Ele não é  indiferente aos acontecimentos sociais. Seu anonimato e solidão não são opcionais foram-lhe impostos. Não foi José quem acabou com a festa, apagou a luz, ele não escolheu o anonimato, uma vez que faz versos  e protesta, não se recolheu para amargar a solidão: foi o povo que sumiu.
"José" é carente de tudo: "está sem mulher", "está sem carinho". Diante  do abandono, sem mulher, sem carinho, José não encontra nem palavras: "está sem discurso".  A sua situação só se agrava, ele não pode recorrer nem a um paliativo, realizando uma fuga  através do cigarro e da bebida: ele não pode refugiar-se na bebida ou em qualquer vício. 
É muito significativa a colocação dos verbos em face às coisas da vida. Até suas esperanças frustraram-se, pois, "o dia não veio", a vinda de um novo dia significa novas oportunidades, mas para José ele não veio. O bonde e o riso não vieram; nem mesmo de mentiras ou de ilusões ele pode viver. O autor passa um sentimento de quem perdeu a hora certa  de agir, de lutar:  "tudo mofou" "acabou", "fugiu"., não há esperança de recuperação, apenas um vazio de tudo.  Tudo é rotina e monotonia. Não pôde realizar-se como pessoa humana, pois está só; ele se expressou através de seus versos e protestos mas quando percebe "tudo acabou", tudo fugiu", tudo mofou". "E agora, José?" ,
Encerrando em si antíteses, José é marcado por sentimentos opostos, conflitos que não conduzem à solução. É uma pessoa apegada às coisas materiais, representadas aqui pelas palavras "gula, (alimento) lavra de ouro, (riqueza) biblioteca (conhecimento)",   mas que tem incoerências, e apresenta grande fragilidade e vulnerabilidade: representadas por seu terno de vidro.
"José" sente-se impossibilitado de agir. Tudo lhe parece inútil e desprovido de significado. "Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta;"  Frente à sua frustração e desesperança, José quer morrer no mar, mas nem isso lhe é permitido porque  não existe mar no qual possa morrer.   Sente-se encurralado, não pode nem morrer. Quer voltar para Minas que é seu ponto de equilíbrio, "Minas não há mais", ou seja,  Minas dos seus sonhos, da sua infância mudou e José também.
Mas José deveria reagir, manifestar-se. Deveria gritar, gemer, cansar, dormir, morrer, mas não morre. José é  duro na queda. Feito de ferro, talvez o mesmo ferro que nutre Itabira, terra do autor. José assume uma extrema passividade.
Totalmente acuado, "sozinho no escuro qual bicho-do-mato" a ele resta a solidão e o abandono, já que José não tem nem a fé religiosa para se refugiar "sem teogonia". Não tem onde se apoiar "sem parede nua para se encostar"  Também não tem  recursos para fugir "sem cavalo preto que fuja a galope," sem destino  ele ainda assim não pára continua sua marcha  sem rumo. "Você marcha José! José, para onde?
José é um poema de desencontros, marcado por um profundo ceticismo. O homem não  encontra a si mesmo. Perdeu-se. Está encurralado, num verdadeiro beco sem saída. Sem qualquer direção ele prossegue: para onde, José?
O poema de Carlos Drumond de Andrade aplica-se aos milhares de "Josés" que transitam pela vida sem serem notados, ouvidos ou vistos. Aos "Josés" condenados pela sociedade à solidão e ao anonimato, que não tiveram nenhuma oportunidade de se realizar como homem. Que gritam, protestam, amam, mas têm seu grito sufocado pela indiferença, seu protesto ignorado e seu amor não correspondido, mas que continuam se arrastando pela vida sem saber onde vão chegar.

Análise realizada em cumprimento  às exigências da disciplina -  Literatura Brasileira - Prof. Carlos Lacerda na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caratinga - FAFIC  - 1982 pela Equipe:
Cleuza
Conceição
Mara e
Rose

27 comentários:

Renata disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renata disse...

Muito legal sua análise , parabéns!

Aliex disse...

Amei a análise. Estou começando a praticar a escrita e resolvi criar um blog. Quando possível, visitem-me! Irei apreciar seus comentários, na esperança de melhorar a forma como escrevo.
Um grande abraço.

Anônimo disse...

Adorei aanalise, realmente é muuito bem elaborada

Thais Barbosa disse...

José é meu poema favorito. Ótima análise, parabéns !

Anônimo disse...

muito bom, adorei, deu pra clarear bem o poema!

Marcos Nunes disse...

A análise fez jus à riqueza do poema , por isso, ficou muito interessante. Parabéns! Contudo, a palavra "monotomia", escrita no comentário, é a grafia equivocada de "monotonia", pois não existe monotomia em nosso vernáculo. Espero ter contribuído.

Cleuza Nogueira disse...

Obrigada, Marcos, por sua contribuição. Erro de digitação, que infelizmente passou despercebido.

Fábio Pampolha disse...

É inacreditavelmente incrível este poema.Só me resta entender que o conhecimento é um tesouro muito valioso que ninguém tira de nós.

Anônimo disse...

simplesmente perfeito sua análise :), me ajudou bastante

Lara Pinheiro disse...

isso foi... lindo! Vou recitá-lo na escola para todos aqueles jovens que se exaltam, mas por dentro sentem-se realmente Josés, assim como eu.

Anônimo disse...

incrível
vou recitá-lo no colégio despertando aos colegas o reconhecimento de que todos temos um José dentro de nós, obrigada.

Camila disse...

ótima análise, me ajudou 100% ! Parabéns pela dedicação ! Abraços.

Anônimo disse...

amei! me ajudou mt na minha pesquisa . parabens e sucesso
bjs gui pereira

Alexandra disse...

maravilhosa essa análise

Unknown disse...

Amei a análise!
Parabéns!!!

Paulo Fernando disse...

Essa poesia é chapante. A análise foi de grande valia para mim. Já conhecia a poesia, Já escutei a música com o Paulo Diniz zilhões de vezes, mas , nunca tinha a visto tão bem destrinchada. Grato a todos colaboradores.

O Letra disse...

Muito obrigado pela análise.

Anônimo disse...

um tesão de analise muito bom parabéns!

Guilherme Domingues disse...

Sensacional análise, meus parabéns.

A disse...

Gostei sim da analise, porem desejo acrescentar que o JOSÉ existiu, chamava-se José Batista Martins da Costa Filho "O Batistinha" era casado com Dolores Andrade prima do Carlito (CDA) que era amigo do Batistinha um gozador, pilhérico aprontava muitas com as pessoas e foi o segundo mineiro a morar em Paris, para estudar.
Porém iniciou os estudos no Caraça dos treze aos vinte anos. Já em Ouro Preto, acabou por abandonar os cursos de Farmácia e Engenharia.
Em sua autobiografia, ele se define perante a educação. “Teve, portanto, os melhores dirigentes, mas… tendo pais boníssimos que satisfaziam in totum os caprichos do voluntarioso caçula, o jovem estudante, antes de terminar a sua obrigação, abandona-a simplesmente para ir larear em Paris. Lá dava uma de anfitrião brasileiro, recebia as pessoas com um lindo terno de linho branco e carruagem alugada, gastando assim o dinheiro que seu pai mandava, que quando descobriu cortou-lhe a mesada fazendo-o retornar ao Brasil.
Apesar de ser um homem muito culto, ele não deixou uma obra escrita. Entretanto, foi um repentista nato, deixando uns poucos contos, sonetos, e trovas como de cordel, matemática, desenho e muitas charadas, aforismos, chistes, trocadilhos, adivinhações e jogos.”
O Batistinha tinha seis filhas Lia, Ave (minha mãe), Isa, Déa, Dulce e Edi , que intitulava em uma só frase " Lia, AvIsa Déa que Dulce Edificou”
Na verdade ele inspirou também em outros Jose's
Atenciosamente, José Batista Mar-Cós (Martins da Costa).

geovanna christinne disse...

Análise maravilhosa.

Pura Emoção! disse...

Sempre procurei por estas palavras explicativas! Parabéns! Agradecida

Anônimo disse...

matheus almeida agradeçe essas palavras de amor e compreenção

Guilherme Brasil disse...

boníssimo parecer

Anônimo disse...

Que análise incrível! Muito Obrigada.

Antonio Neto disse...

Para mim, numa análise psicológica José é o representante por excelência dos depressivos, pois perdem seu chão, não encontram motivação de existência, nem em nada para se apoiar.

Pesquisa personalizada