Páginas

Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Análise do Soneto de Gregório de Matos


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vosso ovelha a vossa glória.

Este soneto já é um clássico. Presença infalível nas boas antologias sobre o barroco. [...]

O princípio da dualidade orienta este soneto do começo ao fim, junto com um raciocínio travado que recorre ao texto bíblico como elemento auxiliar de persuasão. Gregório joga com Mateus, 18.14 - "Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca".  e com Lucas 15.7 "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. "
O recurso ao texto sagrado fortalece a súplica e atenua o desfavorecimento do suplicante, na medida em que este parece oferecer à divindade uma oportunidade  que haverá de aproveitar a ambos os lados. Trata-se de uma atitude chantagista, porque o perdão beneficia o culpado, ao mesmo tempo em que abre uma oportunidade para Deus se mostrar magnânimo.
O padre Antonio Vieira incorreu também nessa intimidade com Deus. Exemplo desse argumento que ponderava sobre a dupla recompensa do benefício é seu famoso "Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda" onde se lê: ...se é condição de Deus usar de misericóridia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante de os não perdoar?". 
A dualidade que reparte, angústia e confronta expõe-se também nos motivos condutores do poema: culpa-perdão. Faces justapostas de um só dilema existencial, ambas se distribuem de modo alternado ao longo do poema: os versos pares acolhem o perdão (clemência, perdoar; abrandar; perdão; lisonja; glória-prazer), enquanto que os ímpares acomodam o delito (pequei-pecado; delinquido; irar-pecado; culpa-ofendido; perdida). Junto com a duplicidade de sentimentos (humildade/presunção), paralela à dupla condição de pecador/arrependido, ocorre também o caráter  ambíguo da figura divina, Deus e o homem simutaneamente. Tanto que em um verso diviniza-se o homem, "pastor divino", e em outro confere-se a Deus um sentimento humano, "prazer...vos deu". Nessa equivalência tensa, um lado anula o outro para que uma terceira entidade sobrevenha. Já não se trata mais daquele Deus que aterroriza o homem medieval, reverente ao extremo, mas sim de um Deus humanizado, diante do qual o homem barroco sentia-se amedrontado , mas confiante, quando não orgulhoso.
[...]Conforme Afrânio Coutinho, Gregório de Matos foi acusado por uma linha de críticos brasileiros como um simples copista de Gôngora e Quevedo, esquecendo-se do que estes dois mesmos gênios devem, através de imitação, aos modelos antigos.
Para ele, a questão gregoriana merece atenção mais cuidadosa, a partir do reconhecimento da imitação, como norma estética do período, exemplo típico de como o conhecimento da teoria literária que informa uma época auxilia a sua interpretação. [...]
Caracteristicas do Estilo Barroco ou Seiscentismo
Em linhas simples e resumida o barroco até o século XIX  foi considerado negativo, pejorativo, sinônimo de bizarro, extravagante, artificial, ampuloso, monstruoso,  uma forma de decadência da arte renascentista ou clássica.
Assim se traduz:  na filosofia: idéia barroca, pensamento barroco, argumentação barroca; em arte: imagem barroca, figura baroca...  "Assim, o conceito, com seu estilo pejorativo, teve curso especialmente no terreno das artes plásticas e visuais, designando a arte e a estética do período subsequente ao Renascimento, interpretada como forma degenerada dessa  arte, expressa na perda de clareza, pureza, elegância de linhas, e no uso de toda a sorte de ornatos e distorções que resultaram num estilo impuro, alambicado e obscuro." [...]
Em 1929, graças aos trabalhos de Wölfflin, a arte barroca foi revalidada, não mais concebendo-se como uma expressão degenerada, antes como forma peculiar de um período da história da cultura moderna, com valor estético e significado próprios, do mesmo modo que o termo recebeu definição precisa, introduzido no uso corrente da crítica de arte e literatura, e, recentemente, nos manuais de história da cultura e da literatura.
A teoria Wölffliniana:
  1. O barroco representa não um declínio, mas o desenvolvimento natural do Classicismo renascentista para um estilo posterior.
  2. Esse estilo, diferentemente do clásico, já não é tátil porém visual, isto é, não admite perspectivas não visuais, e não revela sua arte, mas a dissimula.
  3. A mudança executa-se consoante uma lei interna e os estágios de seu desenvolvimento em qualquer obra podem ser demonstrados graças a cinco categorias.

Renascimento Barroco
1) linear - sentida pela mão. 1) pictórica - sentida pela vista.
2) composta em plano, de jeito a ser sentida. 2) composta em profundidade, de jeito a ser seguida.
3) partes coordenadas de igual valor. 3) partes subordinadas a um conjunto
4) fechada, deixando fora o observador. 4) aberta, colocando dentro o observador.
5) claridade absoluta. 5) claridade relativa.

Um pouco sobre Gregório de Matos
Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia em 1636, filho de Gregório de Matos e de Maria da Guerra.
De família abastada, Gregório pode estudar com os jesuítas de Salvador  e, em 1650, com 14 anos, embarcou para Portugal, onde foi estudar leis. Dois anos depois, em 1652, matriculou-se na Universidade de Coimbra, de onde saiu formado em julho de 1661. Viveu, casou, trabalhou  e enviuvou em Portugal até, possivelmente, o ano de 1678.  Voltou ao Brasil e casou-se novamente. Morreu em 1696, aos 89 anos de idade,  em Recife-Pernambuco - Brasil. Sua biografia é envolta em brumas e mistérios.

Bibliografia:
Matos, Gregório de, 1633?-1696-
Gregório de Matos/seleçãode textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Antonio Dimas. - São Paulo: Abril Educação, 1981. (Literatura Comentada)

Coutinho, Afrânio
Introdução à Literatura Brasileira. 10ª edição. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira S.A, 1980.

Nenhum comentário:

Pesquisa personalizada