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Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Estilo Literário

... No texto literário, o estilo é colocado a serviço da criação artística...
A linguagem literária, se caracteriza sobretudo pela conotação. Num texto literário, aquilo que as palavras representam vai além do conteúdo lógico, ultrapassa a simples representação mental nelas configurada e que reproduz objetivamente o mundo. Não se apóia basicamente no significado, como a linguagem da ciência, por exemplo, mas se "faz" de significado e significante.
As palavras no texto literário, tornam-se multissignificativas e adquirem um valor específico no momento em que se integram no mesmo e passam a fazer parte dos elementos que, interligados e interdependentes, constituem a obra de arte da palavra.
[...]
Cumpre ainda assinalar que a linguagem em versos é um setor da linguagem literária, onde ressaltam entre recursos caracterizadores o ritmo e a imagística¹.
[...]
Afirmam os estudiosos que "os dois campos mais propícios à caracterização linguística pelo estilo são o do vocabulário e da sintaxe". Isto não significa, entretanto, que os demais estejam abandonados; para caracterizar o estilo de um autor podemos considerar a sua criação pessoal em todo o domínio da língua e logo pode-se examinar, além do léxico e da sintaxe, também o âmbito da fonética e da morfologia.
Vejamos o poema de Cecília Meireles:
 [...]

Jogo de Bola


A bela bola
rola:
A bela bola do Raul.
Rosa marela,
a da Arabela.
A do Raul, 
azul.
Rola a amarela
e pula a azul.
A bola é mole,
é mole e rola.
A bola é bela,
é bela e pula.

É bela, rola e pula,
é mole, amarela, azul.

A de Raul é de Arabela,
e a de Arabela é de Raul.
           (Cecília Meireles)

Neste poema, Cecília usa e abusa do efeito expressivo das vogais, notadamente das vogais abertas, bem como das aliterações de consoantes bilabiais e alveolares, como a traduzir o ruído da bola e ao mesmo tempo a sugerir alegria, despreocupação, felicidade, infância... talvez a conotação afetiva destes sons assim combinados tenha suas raízes nas cartilhas que marcaram a nossa infância brasileira. Eis então a camada fônica, o fonema funcionalmente aproveitado como matéria da poesia. Repare-se o valor expressivo das rimas.

¹- Grifo meu
Extraído do livro: 
Estilos de Época na Literatura - Domício Proença Filho - páginas 54 e 55

Um comentário:

Ronperlim disse...

O estilo é a forma particular de dizermos a respeito de algo. No uso artístico da palavra, o que diferencia um escritor de outro é a particularidade do estilo.

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