Páginas

Este blog não pretende ser um tratado do nosso vernáculo. Destina-se àqueles que querem aprender a escrever corretamente. Lapidar as palavras e transformá-las em verdadeiras jóias (bem dispostas no texto, de forma a traduzir o pensamento e publicar as idéias) é o que busca todo o artesão da palavra.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Poema Traduzir-se




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


                                 (Ferreira Gullar. Os Melhores Poemas de Ferreira Gullar.)




Uma Proposta de Análise do poema: Traduzir-se


O pronome reflexivo do título: Traduzir-se - e o poema escrito na primeira pessoa, leva o leitor a depreender que a proposta do autor é interpretar a si mesmo.
O vocábulo traduzir  no léxico pode significar: manifestar, revelar, explicar, demonstrar, representar, simbolizar, explanar, interpretar, etc. Só que no caso do poema, não se trata de traduzir qualquer coisa. Trata-se de uma autoanálise, de um autoconhecimento, de uma descrição profunda de si mesmo.
Ao traduzir-se Ferreira Gullar traduz a alma do artista. Com versos curtos e diretos o autor vai descrevendo naturezas opostas convivendo em um mesmo ser.

Uma parte de mim
É todo mundo:
Outra parte  é ninguém
Fundo sem fundo.

Na primeira estrofe já pode-se perceber a dualidade que caracterizará todo o poema. Ao mesmo tempo que  parte do autor se identifica com todo mundo, é parte integrante da humanidade, conhecida pelos outros e por ele mesmo,  outra parte dele é ninguém; isto é, desconhecida, sem identidade, fundo sem fundo. Que não se traduz.

Uma parte de mim 
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.    

Na segunda estrofe o autor já se analisa do ponto de vista do relacionamento social. Parte dele é multidão, convívio, compartilhamento, um ser que se relaciona. Outra parte é introspectiva, é arrredia, é sorumbática, é solidão. Abrigar em si mesmo naturezas tão opostas, social X subjetiva ao mesmo tempo, parece ser paradoxal.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte 
delira.

O autor vai do comedimento ao devaneio. Uma parte dele mede as consequências, analisa os prós e os contras, é sensata e comedida. Outra parte está fora da realidade.  Não diz respeito ao que é provável, possível ou real.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Nos dois primeiros versos o autor fala do cotidiano,  da rotina do dia-a-dia.  Por um lado ele é uma pessoa comum que faz as mesmas coisas que todos fazem, sem sobressaltos. Por outro lado ele é capaz de viver grandes emoções e de se surpreender.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Parte dele é previsível, não muda. Mas outra parte é desconhecida dele mesmo.  Manifesta-se subitamente. É surpreendente até mesmo para ele. São as reações, as respostas que são dadas em determinadas circunstâncias que a pessoa nunca imaginou ser capaz de tê-las ou dá-las.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem 

A tradução para o vocábulo  -vertigem - no dicionário é:  tontura da cabeça, estado em que se nos afigura que todos os objetos giram em torno de nós. E no sentido figurado significa: loucura momentânea; tentação súbita, ato impetuoso de irreflexão. Enquanto uma parte dele é só tontura, loucura, outra parte é articulada, racional, inteligente.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão 
de vida ou morte -
será arte?

O autor termina o poema com uma interrogação: será arte?. A questão crucial para ele é sintetizar as duas partes, é interpretá-las: uma na outra. 


Conclusão:  

A tradução que o autor faz de si mesmo descreve a percepção que cada um tem de si, mas que nem todos são capazes de colocar em palavras. Todos têm um lado obscuro, desconhecido que às vezes se revela de forma inesperada. Outras vezes há uma verdadeira guerra interior por causa dessa dualidade. Talvez só através da arte possa se traduzir uma parte na outra. 
E para você, será arte?

   


10 comentários:

Thays disse...

Parabéns,gostei mt me ajudou muito na interpretação e na compreensão do texto

Cleuza Nogueira disse...

Obrigada Thays, fico feliz porque esta postagem foi útil para você.

Bruno Saunier disse...

parabens pela postagem , otima analise.

Cleuza Nogueira disse...

Obrigada Bruno.

Anônimo disse...

obrigado os comentários me ajudaram a interpretar o poema para uma tarefa de pós graduação

Anônimo disse...

O professor da minha filha pediu para ela rescrever esse poema se colando no lugar da voz poética. Alguém pode nos ajudar?

Paulo Fernando disse...

" Uma parte de mim
Pesa, pondera:
Outra parte delira "


Poesia delirante, dilacerante.Só de ler me deu vertigem. Só chamando o Fagner com sua interpretação fenomenal para dá uma aliviada. Beleza de Cleuza.

Paulo Fernando disse...

É mais que arte
É um talento nato
É uma agonia cortante
É uma necessidade gritante.


Sabina disse...

Obrigado, me ajudou muito para assim entender o texto!

Hellen Lauana disse...

Qual é a função sintática de traduzir-se?

Pesquisa personalizada